COMITÊ POPULAR DE LUTA EM DEFESA DAS EMPRESAS PÚBLICAS
Comitê Popular de Luta em Defesa das Empresas Públicas
Notícia · 17/09/2026

A motosserra contra as empresas públicas voltou

A motosserra contra as empresas públicas voltou

Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e hoje coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, voltou a defender uma agenda de “revogaço”, corte de gastos, revisão de benefícios tributários e reestruturação de estatais. Em entrevista no seminário Brasil Hoje, do Esfera Brasil, em 14 de setembro de 2026, ela afirmou que um eventual governo Flávio faria uma revisão das empresas controladas pelo governo para decidir quais deveriam ser mantidas, reestruturadas ou liquidadas.

As declarações de Daniella Marques não são uma frase solta de campanha. Elas revelam um projeto político: reduzir o Estado, reestruturar estatais, abrir caminho para privatizações e tratar serviço público como custo — mesmo depois do estrago deixado na Caixa no fim do governo Bolsonaro.

A frase mais grave foi sobre as estatais. Daniella disse que algumas empresas “têm que ser liquidadas” e citou como exemplo a CEITEC, a estatal brasileira de semicondutores. Também questionou “uma estatal de chip do boi”, uma TV estatal e outras estruturas públicas. Na prática, o recado é conhecido: tudo que não cabe na lógica imediata do mercado vira alvo.

O problema é que empresa pública não existe para agradar planilha. Existe para garantir aquilo que o mercado não entrega sozinho: crédito, casa, correio, energia, dado protegido, ciência, tecnologia e presença do Estado onde o lucro não chega.

No mesmo evento, Daniella não foi clara sobre o futuro dos Correios. Criticou a empresa e falou em reestruturação, saneamento e recuperação de valor. Mas os Correios passaram todo o governo Bolsonaro na mira da privatização. O projeto de venda avançou na Câmara, esteve entre as prioridades da equipe econômica e só não foi concluído porque houve resistência política, sindical e social. Quando alguém que veio desse mesmo campo político fala em “reestruturar” sem dizer claramente que é contra vender, o alerta precisa acender.

A fala também alcança o Banco do Brasil. Daniella afirmou que, se pudesse privatizar um banco público primeiro, começaria pelo Banco do Brasil. O Banco do Brasil não é apenas um banco: é o principal operador do crédito rural, sustenta o Plano Safra, chega ao produtor, financia a comida que vai para a mesa do povo brasileiro e carrega 218 anos de história pública. Tratar isso como ativo vendável é tratar soberania alimentar como negócio de ocasião.

A lógica aparece também quando se fala em inteligência artificial no serviço público. Usar tecnologia para melhorar atendimento, reduzir fila e facilitar a vida do cidadão é uma coisa. Usar inteligência artificial como pretexto para cortar concurso, desmontar equipe, substituir servidor e enfraquecer a capacidade do Estado é outra.

O modelo que inspira essa agenda já tem vitrine: a motosserra de Javier Milei na Argentina. Porém, é preciso observar como terminam governos que prometem resolver tudo destruindo o Estado. A experiência argentina mostra o resultado social dessa receita: arrocho, queda de renda, ataque a trabalhadores, taxa altíssima de desemprego e desorganização de serviços públicos essenciais.

E há um ponto que Daniella Marques não pode apagar do próprio histórico. Na Caixa, sua passagem ficou associada a decisões graves tomadas no fim do governo Bolsonaro.

No microcrédito SIM Digital, criado por medida provisória, R$ 3 bilhões do FGTS foram colocados em um fundo garantidor para cobrir risco dos bancos. A inadimplência passou de 80%. Segundo a Folha de S.Paulo, R$ 2,3 bilhões não voltaram. O Estadão, com base em auditoria da CGU, apontou prejuízo de cerca de R$ 2 bilhões para o FGTS.

No consignado do Auxílio Brasil, às vésperas da eleição de 2022, a Caixa operou uma linha de crédito para famílias pobres que recebiam benefício social. Segundo o UOL, dos R$ 7,6 bilhões liberados pela Caixa em 2022, 99% se concentraram entre o primeiro e o segundo turno. Houve contratos acima da margem consignável, descontos indevidos e alertas internos sobre risco de perda relevante. Uma política vendida como ajuda transformou renda de comida e sobrevivência em garantia de empréstimo.

Também pesa a crise de assédio sexual e moral que derrubou Pedro Guimarães da presidência da Caixa em 2022. Daniella assumiu em seguida, em plena campanha eleitoral, num ambiente marcado por denúncias de blindagem, silenciamento e adoecimento de trabalhadores. O MPT ouviu testemunhas e afirmou ter confirmado assédio sexual e moral. A Caixa fechou acordos e foi condenada em valores que chegaram a pelo menos R$ 14 milhões.

Agora, a mesma personagem aparece como fiadora de uma agenda que promete reorganizar o Estado, rever estatais, liquidar empresas públicas e importar o espírito da motosserra. O Comitê precisa dizer com clareza: isso não é modernização. É ameaça ao serviço público, às empresas públicas e à vida concreta do povo brasileiro.

Quando falam em vender banco público, o que está em jogo é o crédito que financia a comida. Quando falam em reestruturar Correios sem compromisso com a universalização, o que está em jogo é a entrega onde o mercado não quer ir. Quando falam em liquidar estatal de tecnologia, o que está em jogo é quem manda nos dados, nos chips, nos sistemas e na soberania digital do país.

Empresa pública não é cabide. É instrumento do povo brasileiro.

E quem já deixou prejuízo bilionário no FGTS, endividamento de famílias pobres e crise de reputação na Caixa não pode posar agora como professora de gestão pública.

Defender as empresas públicas é defender o Brasil.

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