COMITÊ POPULAR DE LUTA EM DEFESA DAS EMPRESAS PÚBLICAS
Comitê Popular de Luta em Defesa das Empresas Públicas
Notícia · 28/09/2026

Quem guarda o seu CPF? O Serpro estava à venda em 2020 — e hoje bate recorde

Quem guarda o seu CPF? O Serpro estava à venda em 2020 — e hoje bate recorde

Toda vez que você entra no gov.br, declara o Imposto de Renda, abre a CNH no celular ou consulta o FGTS Digital, você está usando uma empresa pública. Ela se chama Serpro. Em janeiro de 2020, o governo Bolsonaro colocou o Serpro à venda.

O Serviço Federal de Processamento de Dados existe desde 1964 e é a maior empresa pública de tecnologia da informação do Brasil. É dele o gov.br, com mais de 170 milhões de contas ativas e cinco mil serviços digitais no mesmo login, e são dele mais de 150 milhões de assinaturas eletrônicas feitas por brasileiros. É dele a Carteira de Identidade Nacional, a Nota Fiscal Eletrônica dos MEIs e o programa do Imposto de Renda. E é dele a Nuvem de Governo, que o Ministério da Gestão descreve como a plataforma “onde operam sistemas críticos do Estado e na qual são guardados, de forma segura, dados estratégicos”.

Em outras palavras: o Serpro guarda a chave de boa parte da vida digital do país. E quase foi vendido.

Pelo Decreto 10.206, de janeiro de 2020, o governo Bolsonaro incluiu o Serpro e a Dataprev no Programa Nacional de Desestatização. Não era estudo, era decisão: a porta de entrada para o leilão. Entre 2021 e 2024, enquanto a venda ficava no horizonte, a empresa perdeu mil empregados, de 7.657 para 6.650, sem reposição.

Em 6 de abril de 2023, o Decreto 11.478 retirou o Serpro, a Dataprev, os Correios, a Ceitec, a EBC, a Nuclep e a ABGF dos programas de privatização. No mesmo ano, o Serpro lançou a Nuvem de Governo. Em 2024, registrou o maior lucro da sua história, R$ 685 milhões, e investiu R$ 228 milhões no parque tecnológico, 18% a mais que no ano anterior. Em 2025, bateu o próprio recorde: R$ 755 milhões de lucro, faturamento de R$ 5,4 bilhões, R$ 401 milhões devolvidos à União em dividendos e quase 600 contratações em um ano, com o quadro voltando a 7.248 pessoas. Os números estão no Relatório Agregado das Empresas Estatais Federais publicado pelo Ministério da Gestão, com página e tabela.

Não é preciso vender uma empresa pública para esvaziá-la. Basta colocá-la na lista, parar de contratar e esperar. E não é preciso milagre para reerguê-la. Basta tirá-la da lista e deixá-la trabalhar.

O que está em jogo agora

Em fevereiro de 2026, o candidato Flávio Bolsonaro prometeu a investidores, na conferência do banco BTG Pactual, privatizar 95% das estatais e disse que o seu ministro da Fazenda terá de ser “no mínimo igual a Paulo Guedes”, que era o ministro da Economia quando saiu a lista de 2020. Ninguém da campanha disse, até agora, se o Serpro está dentro dos 95%. É uma pergunta simples, e quem trabalha com dado público tem o direito de ouvir a resposta antes de domingo.

O Comitê Popular de Luta em Defesa das Empresas Públicas não é sindicato e não fala pelo Serpro. Fala por quem depende dele, ou seja, por todo mundo. Se o gov.br, a Nuvem de Governo e o cadastro de 170 milhões de pessoas forem vendidos, a chave vai para quem pagar mais. E quem paga mais nunca é quem precisa mais.

Compartilhe esta matéria com três pessoas da sua empresa. Pergunte a elas: se vendem o Serpro, para quem vai a chave?

Quem guarda o seu CPF é público. Deixa público.

Instituições: Serpro