A fábrica de chips que mandaram fechar voltou a vender
O Brasil tem uma única fábrica pública de semicondutores, em Porto Alegre. Em 2020, o governo mandou fechar. Em 2023, o governo mandou reabrir. Em 2025, ela voltou a vender chip. Esta é a história mais curta e mais clara sobre o que está em jogo na eleição.
A Ceitec, Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada, foi criada em 2008 para fabricar chips no Brasil — os componentes de identificação por radiofrequência usados em rastreamento de gado, documentos e logística. Em 2020, o governo Bolsonaro decretou a liquidação da empresa. O faturamento caiu a zero em 2022 e 2023. O quadro encolheu para 75 pessoas. Não foi vendida: foi desligada.
Reabrir uma fábrica não é apertar um botão
O Ministério da Gestão registra, em documento oficial: “A empresa teve seu processo de liquidação revertido em abril de 2023 e retomou suas operações regulares em novembro do mesmo ano, já fora do Programa Nacional de Desestatização.” Em 2024, a Ceitec recebeu R$ 249 milhões em aporte de capital, fez novo planejamento estratégico e iniciou o reposicionamento em dispositivos de eletrônica de potência, com um projeto de capacitação em carbeto de silício demandado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e financiado pela Finep.
Em 2025, veio o resultado: a empresa retomou a comercialização dos produtos RFID e registrou receita bruta de R$ 7,7 milhões, contra R$ 0,1 milhão no ano anterior. O quadro chegou a 105 pessoas. E a Ceitec firmou com a Finep um projeto de até R$ 220 milhões para desenvolver tecnologias de semicondutores voltadas à transição energética. Carbeto de silício é o material dos chips que controlam a potência em carros elétricos, painéis solares, turbinas eólicas e automação industrial. É o mercado que o mundo inteiro está disputando.
A fábrica ainda dá prejuízo contábil. Em 2025, foram R$ 17 milhões negativos, o custo de reerguer o que foi mandado fechar. Não escondemos o número. Explicamos: reabrir custa; fechar custou mais.
Terras raras, chips e a pergunta que fica
O Brasil tem uma das maiores reservas de terras raras e minerais críticos do mundo. Um documento de 22 páginas, com o nome de Flávio Bolsonaro e a marca da campanha na capa, propõe fazer do Brasil o “principal fornecedor e hub de processamento de minerais críticos alinhado ao Ocidente” em parceria com os Estados Unidos. A campanha negou envolvimento e o autor disse que foi iniciativa própria. Registramos os dois lados. E registramos a lógica: quem não fabrica chip fica com o minério no chão e sem a tecnologia. País que entrega o minério e fecha a fábrica vira fornecedor de matéria-prima para sempre.
O Comitê Popular de Luta em Defesa das Empresas Públicas não fala pela Ceitec. Fala por um país que quer fabricar o que consome. Em 2020, mandaram fechar. Em 2026, quem promete “um novo Guedes” está prometendo a lista de 2020 de novo.
Compartilhe com quem acha que soberania é palavra de discurso. Chip é soberania com endereço: rua da fábrica, Porto Alegre.
Fecharam. Reabrimos. Agora é decidir se fica aberta.