COMITÊ POPULAR DE LUTA EM DEFESA DAS EMPRESAS PÚBLICAS
Comitê Popular de Luta em Defesa das Empresas Públicas

Sem CNPq, não tem cientista: o ano em que 84 mil bolsistas não sabiam se iam receber

Mais de 95% da produção científica brasileira veio de universidades públicas entre 2011 e 2016, segundo estudo da Clarivate para a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Vacina, semente mais resistente, tecnologia de energia, remédio: quase tudo o que o Brasil produz de conhecimento nasce ali. E boa parte de quem faz essa pesquisa só consegue se dedicar a ela porque recebe uma bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Em 2024, o Brasil publicou mais de 73 mil artigos científicos, 4,5% a mais que no ano anterior, voltando a crescer depois de dois anos de queda. Foi a ciência brasileira, com USP e Fiocruz, que comprovou em 2016, na revista Nature, a relação entre o vírus zika e a microcefalia. Quando a emergência chega, é essa estrutura que responde.

O ano em que o dinheiro acabou

Em março de 2019, no governo Bolsonaro, o CNPq tinha R$ 912 milhões para o ano, mas precisava de R$ 1,2 bilhão. Não houve Chamada Universal, o principal edital de apoio à pesquisa. Em agosto, faltavam R$ 330 milhões e cerca de 84 mil bolsistas estavam ameaçados. O presidente do CNPq na época foi direto: “Vamos pagar as bolsas de agosto normalmente; mas de setembro em diante não tem como pagar mais nada”. Um remanejamento de última hora garantiu só as bolsas de setembro.

No mesmo ano, o então ministro da Educação do governo Bolsonaro, Abraham Weintraub, declarou: “Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas”. Houve bloqueio de 30% nas verbas de universidades federais.

Em outubro de 2021, o Ministério da Economia alterou um projeto que liberava R$ 690 milhões para a ciência. O Ministério da Ciência e Tecnologia ficou com R$ 89,8 milhões, um corte de 87%. Quando o Congresso aprovou a lei que proibia bloquear o dinheiro do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), o então presidente Jair Bolsonaro vetou. O Congresso derrubou o veto. Em agosto de 2022, uma medida provisória voltou a limitar o uso do fundo.

As bolsas de mestrado e doutorado ficaram sem reajuste de 2013 até 2023. Em março de 2023, já no governo Lula, os valores foram corrigidos: mestrado de R$ 1.500 para R$ 2.100, doutorado de R$ 2.200 para R$ 3.100, iniciação científica de R$ 400 para R$ 700 e iniciação científica júnior, para estudantes do ensino médio, de R$ 100 para R$ 300. No mesmo ano, o FNDCT foi recomposto e chegou a R$ 9,6 bilhões.

A luta não acabou. O Orçamento de 2026 aprovado no Congresso cortou recursos da ciência, e os pós-graduandos e pós-graduandas cobram novo reajuste. Por isso a defesa do CNPq precisa ser permanente, e não só em ano de eleição.

Quando falta dinheiro para a ciência, perde o jovem pesquisador, que troca o laboratório por qualquer emprego ou vai embora do país. Perde a universidade pública, que é quem faz a ciência brasileira. E perde o país inteiro, que fica dependente de comprar de fora a vacina, a semente e a tecnologia que poderia desenvolver aqui.

Sem bolsa não tem cientista, e sem cientista não tem soberania. Compartilhe com quem estuda ou pesquisa.

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Ciência em números: o que o CNPq financia e por que isso é soberania

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) aprovou 6.057 bolsas no resultado final da chamada de Bolsas de Produtividade em Pesquisa, sendo 5.623 de produtividade, 85 para pesquisadores sêniores e 349 de desenvolvimento tecnológico, segundo o próprio conselho. Mais de 1.500 pesquisadores e pesquisadoras recebem a bolsa pela primeira vez. Na outra ponta da carreira, o ciclo de iniciação científica e tecnológica que começou em setembro de 2026 soma 120.576 bolsas de 12 meses.

Esses números explicam uma coisa simples: no Brasil, a ciência é pública. Mais de 95% da produção científica do país veio de universidades públicas entre 2011 e 2016, segundo estudo da Clarivate para a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Em 2024, o Brasil publicou mais de 73 mil artigos científicos, 4,5% a mais que no ano anterior, voltando a crescer depois de dois anos de queda. Foi essa estrutura que, em 2016, comprovou na revista Nature a relação entre o vírus zika e a microcefalia, em estudo com USP e Fiocruz.

Quando o dinheiro some

Em agosto de 2019, no governo Bolsonaro, faltavam R$ 330 milhões no orçamento do CNPq e cerca de 84 mil bolsistas estavam ameaçados de ficar sem pagamento. Em março de 2023, no governo Lula, as bolsas de mestrado e doutorado foram reajustadas em 40%, depois de dez anos congeladas, e a de iniciação científica passou de R$ 400 para R$ 700. Mas a disputa continua: o Orçamento de 2026 aprovado no Congresso reservou R$ 1,738 bilhão ao CNPq, R$ 92,4 milhões a menos do que a proposta original, segundo a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Traduzindo para a vida: cada bolsa cortada é um jovem que desiste do laboratório, uma pesquisa sobre doença, semente ou energia que para no meio e um pedaço de conhecimento que o Brasil vai precisar comprar de fora. Um país que não financia a própria ciência depende da ciência dos outros.

O Comitê defende orçamento estável para o CNPq, reajuste periódico das bolsas e proteção do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico contra bloqueios. Ciência não é gasto: é o que garante que o Brasil resolva os próprios problemas.

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CNPq abre novo ciclo com 120 mil bolsas de iniciação científica e tecnológica

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) iniciou em 11 de setembro de 2026 o terceiro ciclo das chamadas 2024-2027 de seus programas de iniciação científica e tecnológica, segundo o próprio conselho. São 120.576 bolsas de 12 meses, com vigência de setembro de 2026 a agosto de 2027, dentro de um investimento de R$ 932,1 milhões nos três anos.

As bolsas são distribuídas por quatro programas: o PIBIC, de iniciação científica na graduação; o PIBITI, voltado ao desenvolvimento tecnológico e à inovação; o PIBIC-EM, para estudantes do ensino médio; e o PIBIC-Af, de iniciação científica nas ações afirmativas. As universidades e os institutos de pesquisa aprovados nas chamadas de 2024 tinham até 15 de setembro para indicar os bolsistas. O CNPq informou que divulgará até o fim de 2026 as chamadas do triênio 2027-2030.

Por que isso importa

Iniciação científica é a porta de entrada da pesquisa. É ali que o estudante descobre o laboratório, aprende método e decide se vai seguir carreira científica. Para quem vem de família de baixa renda, a bolsa costuma ser a condição para continuar estudando em vez de largar a pesquisa por um emprego qualquer. Em 2023, no governo Lula, a bolsa de iniciação científica na graduação passou de R$ 400 para R$ 700, e a de iniciação científica júnior, para o ensino médio, de R$ 100 para R$ 300.

A história recente mostra que esse programa não pode ser tratado como garantido. Em agosto de 2019, no governo Bolsonaro, o CNPq avisou que não teria dinheiro para pagar bolsas a partir de setembro, com cerca de 84 mil bolsistas ameaçados.

O Comitê defende a continuidade e a ampliação das bolsas de iniciação científica como política de Estado, com orçamento protegido e reajuste periódico. É assim que o Brasil forma quem vai desenvolver a vacina, a semente e a tecnologia de amanhã.

Cada bolsa é um futuro cientista. Encaminhe para estudantes, professores e professoras.

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