Água no sertão: o que a Fundação Banco do Brasil ensina sobre o valor do que é público
Em 2024, a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) entregou 47.290 cisternas e atendeu cerca de 213 mil pessoas no semiárido, segundo balanço divulgado em janeiro de 2025. Para uma família do sertão, uma cisterna é a diferença entre caminhar atrás de água e ter o que beber em casa durante a seca. Não é tecnologia de ponta. É tecnologia social: solução simples, barata, construída com a comunidade, que muda a vida de quem usa.
Criada em 1985, a Fundação Banco do Brasil é o braço social do BB. Nos dez anos até 2024, investiu R$ 2,7 bilhões, apoiou 10 mil iniciativas e beneficiou 6,8 milhões de pessoas em 3.400 municípios. A plataforma Transforma! reúne 915 tecnologias sociais reconhecidas, e o 13º Prêmio Fundação BB de Tecnologia Social certificou mais 148 em 2026, de 22 estados.
Os exemplos estão no chão do país. O Novo Cataforte, com R$ 70 milhões da Fundação BB e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), apoia cooperativas de catadores e catadoras, que respondem por cerca de 90% do material reciclado no Brasil, segundo o Movimento Nacional dos Catadores. No Cerrado, o sistema Suindara avisa brigadistas sobre focos de incêndio e protege povos indígenas, quilombolas e agricultores familiares.
Quando o Estado sai do semiárido
O Programa Cisternas mostra, em números, o que é desmontar uma política pública. Em 2014, o país entregou 149 mil cisternas. Em 2019, já no governo Bolsonaro, foram menos de 9 mil. Em 2022, apenas 3.698, menos do que em 2004, com um orçamento 96% menor que o de 2014. Em valores, o programa saiu de R$ 820 milhões em 2013 para R$ 22 milhões executados em 2022.
Com a retomada do programa no governo Lula, as entregas voltaram a crescer. Em parceria com a Fundação BB e o BNDES, 1.400 famílias receberam cisternas-calçadão de 52 mil litros, usadas para produzir alimento, além de R$ 4.600 de fomento cada. Parte desse dinheiro, R$ 56 milhões, estava em risco e só foi recuperada depois de homologação judicial, em julho de 2023.
A Fundação BB existe porque existe um banco público disposto a olhar para onde o lucro não olha: o sertão, a cooperativa de catadores, a comunidade tradicional. Quando candidatos defendem vender o Banco do Brasil, vale perguntar: um banco privado vai continuar investindo em cisterna, reciclagem e agroecologia? Perde a família do semiárido, perde o catador, perde o agricultor familiar. E perde o país, que deixa de aprender com as soluções que o próprio povo inventou.
Tecnologia social é política pública chegando na vida das pessoas. Compartilhe.
Fontes Checadas
- Fundação BB em números: Nossa Causa (04/2025) — R$ 2,7 bi em dez anos — acessar fonte
- Novas tecnologias sociais: Fundação BB (12/02/2026) — 148 novas tecnologias sociais certificadas — acessar fonte
- Transforma!: Rio Grande Tem (2026) — 13º Prêmio Fundação BB de Tecnologia Social — acessar fonte
- Catadores: BNDES Conexões — Novo Cataforte — acessar fonte
- Suindara: Fundação BB (26/08/2026) — Prevenção a incêndios no Cerrado — acessar fonte
- Desmonte do Programa Cisternas: Folhapress/Jornal de Brasília (03/03/2023) — Programa de cisternas encolhe 96% — acessar fonte
- Orçamento executado: Projeto #Colabora — Programa Cisternas só encolheu — acessar fonte
- Cisternas em 2024: ASA (31/01/2025) — Mais de 47 mil cisternas — acessar fonte
- Parceria com a Fundação BB: ASA (29/08/2025) — Execução do P1+2 — acessar fonte