COMITÊ POPULAR DE LUTA EM DEFESA DAS EMPRESAS PÚBLICAS
Comitê Popular de Luta em Defesa das Empresas Públicas
Explicação · 16/09/2026

Banco do Brasil: o crédito que planta a comida do país voltou à lista de venda

O Banco do Brasil anunciou em 3 de julho de 2026 R$ 210 bilhões em crédito para a safra 2026/27, segundo a CNN Brasil. É com dinheiro assim, contratado meses antes do plantio, que o feijão, o arroz e o leite chegam à mesa. No Brasil, boa parte desses contratos passa por um banco público.

Segundo o próprio banco, o BB tinha cerca de 50% da carteira de crédito do agronegócio no país e cerca de 57% do crédito a produtores pessoa física, em dados de setembro de 2024. Em junho de 2026, a carteira agro do BB somava R$ 421,6 bilhões, alta de 4,1% em doze meses, enquanto a carteira total do banco cresceu 1,5%.

Do total anunciado pelo BB, R$ 40 bilhões vão para pequenos e médios produtores. O Plano Safra lançado pelo governo Lula para a agricultura empresarial soma R$ 525,1 bilhões, e o da agricultura familiar reserva R$ 85,2 bilhões ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), com juros de 2% ao ano para quem produz alimentos e 1% para sistemas agroecológicos.

O ano de 2025 foi duro para o banco. O lucro ajustado caiu 45,4%, para R$ 20,7 bilhões, principalmente por causa da inadimplência no campo, depois de safras ruins e juros altos. É exatamente nesse tipo de momento que se vê a função de um banco público: mesmo sob pressão, ele continua anunciando crédito para a próxima safra. Um banco privado responde ao acionista. Na primeira safra ruim, a conta é simples: cortar crédito, subir juro e sair das regiões de maior risco. Quem paga é o agricultor e, logo depois, quem compra comida.

“Tem que vender essa porra logo”

Em 22 de abril de 2020, em reunião ministerial gravada e depois divulgada por decisão do Supremo Tribunal Federal, o então ministro da Economia do governo Bolsonaro, Paulo Guedes, falou sobre o Banco do Brasil: “O Banco do Brasil é um caso pronto de privatização”. E completou: “Então tem que vender essa porra logo”. O então presidente do BB, Rubem Novaes, disse que o banco “estaria pronto para um programa de privatização”. A resposta de Jair Bolsonaro foi adiar o assunto para depois da eleição: “Isso aí só se discute, só se fala isso em vinte e três, tá?”.

Em setembro de 2021, Guedes voltou ao tema num evento empresarial: “Petrobras, Banco do Brasil, todo mundo entrando na fila, sendo vendido e sendo transformado em dividendos sociais”. Enquanto isso, o banco se desfazia de participações, como a fatia que tinha na resseguradora IRB, vendida em 2019.

Em 26 de abril de 2026, o candidato à Presidência Romeu Zema (Novo) prometeu: “Eu vou privatizar a Petrobras. Eu vou privatizar o Banco do Brasil.” Em 14 de setembro de 2026, Daniella Marques, coordenadora do programa econômico da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), afirmou que o “Banco do Brasil poderia (ser privatizado), pois negocia menos de uma vez seu patrimônio”. Traduzindo: o argumento é que as ações do banco estão baratas. Vender um patrimônio público justamente quando ele está desvalorizado é o tipo de negócio que ninguém faria com a própria casa. O candidato Ronaldo Caiado (PSD), por outro lado, disse em entrevista que “de maneira alguma” privatizaria o BB.

Se o BB for vendido, perde o pequeno produtor, que fica sem o crédito que o sustenta na crise. Perde quem planta alimento, que perde a política de juros baixos. Perde o município que não interessa a banco privado. E o país perde capacidade de decidir o que quer plantar, e para quem.

O crédito que planta a comida do Brasil passa por banco público. Encaminhe para quem vive do campo ou faz compra no mercado.

Fontes Checadas

Instituições: Banco do Brasil