COMITÊ POPULAR DE LUTA EM DEFESA DAS EMPRESAS PÚBLICAS
Comitê Popular de Luta em Defesa das Empresas Públicas
Explicação · 16/09/2026

Caixa: a casa, o FGTS e o Bolsa Família passam por um banco que é seu

Em 2020, no pior momento da pandemia, 67,8 milhões de brasileiros e brasileiras receberam o Auxílio Emergencial pela Caixa, segundo balanço divulgado em novembro daquele ano. Foram R$ 242 bilhões creditados e 105 milhões de contas digitais abertas no aplicativo Caixa Tem. Muita gente abriu ali a primeira conta bancária da vida. Não foi um banco privado que fez isso. Foi a Caixa. E o governo que dizia querer vender as estatais precisou de um banco público para chegar até as pessoas.

Em junho de 2026, a carteira de crédito habitacional da Caixa passou de R$ 1 trilhão. O banco responde por 68% de todo o crédito para compra de imóveis no Brasil. Em 2025 foram mais de 873 mil imóveis financiados, e 58,4% deles pelo Minha Casa, Minha Vida.

Desde a retomada do programa pelo governo Lula, em 2023, o Minha Casa, Minha Vida chegou a 2,5 milhões de moradias contratadas, segundo anúncio de agosto de 2026. Para 2026, o Conselho Curador do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) aprovou R$ 144,5 bilhões só para habitação. Em cada uma dessas casas há uma família que saiu do aluguel ou da área de risco com financiamento de um banco público.

A diferença aparece quando se olha para trás. Entre 2019 e 2020, no governo Bolsonaro, não houve nenhuma nova contratação para a Faixa 1 do Minha Casa, Minha Vida, a faixa das famílias mais pobres, segundo o Observatório das Metrópoles. O programa ganhou outro nome, Casa Verde e Amarela, e o então ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, disse que não haveria nova contratação para essa faixa até 2024. Hoje senador pelo PL, Marinho coordena a campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência.

No orçamento de 2021, depois de um veto de R$ 1,5 bilhão, sobraram R$ 27 milhões para o programa. Cerca de 200 mil casas ficaram com obras ameaçadas de paralisação. Até o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção classificou o corte como “loucura”.

A Caixa é a operadora do FGTS, o fundo que protege o trabalhador e a trabalhadora demitidos e financia moradia, saneamento e infraestrutura. No fim de 2025, o fundo tinha R$ 837,7 bilhões em ativos e bateu recorde de arrecadação. Do lucro de 2025, R$ 13,04 bilhões foram distribuídos nas contas de 138,2 milhões de trabalhadores. Em 2025, o FGTS também atendeu 662 municípios em situação de calamidade.

Em agosto de 2026, o Bolsa Família chegou a 19,3 milhões de famílias, com benefício médio de R$ 678,35, pago pela Caixa. O abono salarial de 2026 chega a 25,4 milhões de trabalhadores e trabalhadoras, e a parte do PIS é paga pela Caixa. Seguro-desemprego e Pé-de-Meia também passam pelo banco.

As Loterias Caixa repassaram mais de R$ 12,2 bilhões para áreas sociais em 2025: esporte, cultura, Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), seguridade social e segurança pública. E a Caixa é a única instituição financeira do país autorizada a fazer penhor, que em 2025 somou R$ 3,2 bilhões em empréstimos. Para muita família endividada, é uma das saídas de crédito mais baratas que existem.

Como se fatia um banco público

A ameaça à Caixa quase nunca vem com o nome “privatização”. Vem em fatias. Em junho de 2019, no governo Bolsonaro, o então presidente do banco, Pedro Guimarães, anunciou a venda de participações e o plano de abrir o capital da Caixa Seguridade, da Caixa Cartões, da Caixa Asset e das Loterias. A frase dele foi: “Nós vamos focar no varejo”. A Caixa vendeu R$ 7,3 bilhões em ações da Petrobras que tinha em carteira.

Em 2021 veio a abertura de capital da Caixa Seguridade, que levantou R$ 5 bilhões, sob protesto dos bancários e bancárias. No mesmo ano, o presidente do banco resumiu a estratégia: “Queremos abrir capital, seja onde for”. Só as Loterias escaparam, porque, nas palavras dele, “não há tranquilidade jurídica para vender a operação”.

O método é conhecido. Vende-se primeiro a parte que dá lucro: seguros, cartões, gestão de investimentos. O banco fica só com a parte cara, a do atendimento social. Depois, alguém aparece dizendo que ele é ineficiente.

Em 14 de setembro de 2026, Daniella Marques, que presidiu a Caixa em 2022 e hoje coordena o programa econômico da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), disse que a Caixa não seria privatizada: “A Caixa tem papel importante e a gente quer a Caixa como braço na ponta oferecendo solução de crédito”. No mesmo evento, afirmou que “mais de 20 estatais” podem entrar na mira e que o Banco do Brasil “poderia” ser privatizado. Já o plano de governo do candidato Romeu Zema (Novo) propõe privatizar todas as estatais, “incluindo empresas estratégicas como Petrobras ou bancos públicos”.

A promessa de manter a Caixa vem da mesma equipe econômica que, entre 2019 e 2022, fatiou o banco. Vale a pena lembrar disso.

O que o povo perde

Perde o banco que responde por 68% do crédito imobiliário do país. Perde a Faixa 1, que já foi zerada uma vez. Perde a garantia de que o FGTS será usado para moradia e saneamento, e não só para o que dá mais lucro. Perde a lotérica que funciona como agência em cidade pequena. Perde o penhor. E, na próxima crise, perde o banco que conseguiu pagar 68 milhões de pessoas em plena pandemia.

A Caixa é do povo. Quem mora, quem trabalha e quem recebe benefício tem tudo a ver com isso.

Encaminhe para quem mora em casa financiada, recebe benefício ou tem FGTS: a Caixa é assunto seu.

Fontes Checadas

Instituições: Caixa Econômica Federal