COMITÊ POPULAR DE LUTA EM DEFESA DAS EMPRESAS PÚBLICAS
Comitê Popular de Luta em Defesa das Empresas Públicas
Explicação · 16/09/2026

Sem CNPq, não tem cientista: o ano em que 84 mil bolsistas não sabiam se iam receber

Mais de 95% da produção científica brasileira veio de universidades públicas entre 2011 e 2016, segundo estudo da Clarivate para a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Vacina, semente mais resistente, tecnologia de energia, remédio: quase tudo o que o Brasil produz de conhecimento nasce ali. E boa parte de quem faz essa pesquisa só consegue se dedicar a ela porque recebe uma bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Em 2024, o Brasil publicou mais de 73 mil artigos científicos, 4,5% a mais que no ano anterior, voltando a crescer depois de dois anos de queda. Foi a ciência brasileira, com USP e Fiocruz, que comprovou em 2016, na revista Nature, a relação entre o vírus zika e a microcefalia. Quando a emergência chega, é essa estrutura que responde.

O ano em que o dinheiro acabou

Em março de 2019, no governo Bolsonaro, o CNPq tinha R$ 912 milhões para o ano, mas precisava de R$ 1,2 bilhão. Não houve Chamada Universal, o principal edital de apoio à pesquisa. Em agosto, faltavam R$ 330 milhões e cerca de 84 mil bolsistas estavam ameaçados. O presidente do CNPq na época foi direto: “Vamos pagar as bolsas de agosto normalmente; mas de setembro em diante não tem como pagar mais nada”. Um remanejamento de última hora garantiu só as bolsas de setembro.

No mesmo ano, o então ministro da Educação do governo Bolsonaro, Abraham Weintraub, declarou: “Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas”. Houve bloqueio de 30% nas verbas de universidades federais.

Em outubro de 2021, o Ministério da Economia alterou um projeto que liberava R$ 690 milhões para a ciência. O Ministério da Ciência e Tecnologia ficou com R$ 89,8 milhões, um corte de 87%. Quando o Congresso aprovou a lei que proibia bloquear o dinheiro do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), o então presidente Jair Bolsonaro vetou. O Congresso derrubou o veto. Em agosto de 2022, uma medida provisória voltou a limitar o uso do fundo.

As bolsas de mestrado e doutorado ficaram sem reajuste de 2013 até 2023. Em março de 2023, já no governo Lula, os valores foram corrigidos: mestrado de R$ 1.500 para R$ 2.100, doutorado de R$ 2.200 para R$ 3.100, iniciação científica de R$ 400 para R$ 700 e iniciação científica júnior, para estudantes do ensino médio, de R$ 100 para R$ 300. No mesmo ano, o FNDCT foi recomposto e chegou a R$ 9,6 bilhões.

A luta não acabou. O Orçamento de 2026 aprovado no Congresso cortou recursos da ciência, e os pós-graduandos e pós-graduandas cobram novo reajuste. Por isso a defesa do CNPq precisa ser permanente, e não só em ano de eleição.

Quando falta dinheiro para a ciência, perde o jovem pesquisador, que troca o laboratório por qualquer emprego ou vai embora do país. Perde a universidade pública, que é quem faz a ciência brasileira. E perde o país inteiro, que fica dependente de comprar de fora a vacina, a semente e a tecnologia que poderia desenvolver aqui.

Sem bolsa não tem cientista, e sem cientista não tem soberania. Compartilhe com quem estuda ou pesquisa.

Fontes Checadas

Instituições: CNPq