COMITÊ POPULAR DE LUTA EM DEFESA DAS EMPRESAS PÚBLICAS
Comitê Popular de Luta em Defesa das Empresas Públicas
Explicação · 16/09/2026

Correios: o carteiro chega onde o lucro não chega

Os Correios estão presentes nos 5.570 municípios brasileiros e, em 2026, fazem a logística completa dos Tribunais Regionais Eleitorais, incluindo a distribuição das urnas eletrônicas, segundo a Sala de Imprensa da empresa. Para quem mora numa capital, são uma entre várias opções de entrega. Para quem mora num município pequeno do interior, as alternativas são muito menores, e o carteiro é quem garante que a encomenda chegue. É essa diferença que costuma sumir do debate sobre privatização.

Em 2024, os Correios entregaram mais de 200 milhões de livros didáticos em 140 mil escolas e fizeram a logística do Enem em 1.700 cidades. Nas enchentes do Rio Grande do Sul, em 2024, arrecadaram mais de 15 mil toneladas de doações até maio.

Nada disso é pensado para dar lucro. Segundo reportagem do jornal O Tempo, só cerca de 15% das agências são lucrativas. As demais funcionam porque as operações rentáveis das grandes cidades pagam o atendimento no resto do país. Isso tem nome: universalização do serviço postal.

A crise, sem esconder nada

Os números são ruins, e o Comitê não vai fingir que não são. Os Correios tiveram lucro recorde de R$ 3,7 bilhões em 2021 e, a partir de 2022, entraram em prejuízo. Em 2025, o prejuízo foi de R$ 8,5 bilhões.

Mas é preciso olhar a composição. Desse total, R$ 6,4 bilhões vieram de obrigações judiciais, como adicionais trabalhistas reconhecidos na Justiça, e não da operação do dia a dia. A receita com encomendas internacionais caiu de R$ 3,9 bilhões em 2024 para R$ 1,3 bilhão em 2025, sobretudo depois que o programa Remessa Conforme abriu o desembaraço aduaneiro a empresas privadas.

Para sair do buraco, a empresa fechou um empréstimo de R$ 12 bilhões com garantia do Tesouro em dezembro de 2025 e aprovou um plano de reestruturação que prevê voltar ao lucro em 2027. O plano inclui programa de demissão voluntária (PDV) e revisão de custos. É um caminho duro, que exige cobrar transparência e respeito a quem trabalha na empresa. Mas é um caminho que mantém o serviço de pé.

Em abril de 2021, no governo Bolsonaro, os Correios foram incluídos no Programa Nacional de Desestatização (PND). Em 5 de agosto de 2021, a Câmara aprovou o projeto de privatização (PL 591/2021) por 286 votos a 173. O texto parou no Senado. Em abril de 2023, o governo Lula retirou a empresa da lista de privatizações.

Em 2026, a proposta voltou. Em entrevista à Rádio Itatiaia, em 2 de junho, o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) disse: “Os Correios têm que ser privatizados, para começar. É uma unanimidade sua ineficiência e a falta de capacidade de investimento”. O candidato Romeu Zema (Novo) prometeu vender “as estatais que só dão prejuízo, como os Correios”.

Uma empresa privada que compra os Correios compra as agências que dão lucro. As outras 85% viram problema a ser resolvido, com fechamento ou com tarifa mais cara. Perde o morador da cidade pequena, que fica sem agência. Perde o pequeno vendedor da internet, que depende de frete com preço nacional. Perdem a escola que espera o livro didático, o estudante que faz o Enem e a eleição que depende da urna chegar a tempo.

Crise se enfrenta com reestruturação e investimento. Vender na baixa é entregar patrimônio público pelo menor preço possível.

Carta que chega no interior não dá lucro. Por isso o mercado não leva. Compartilhe.

Fontes Checadas

Instituições: Correios