COMITÊ POPULAR DE LUTA EM DEFESA DAS EMPRESAS PÚBLICAS
Comitê Popular de Luta em Defesa das Empresas Públicas
Notícia · 17/09/2026

O “ótimo exemplo” da campanha de Flávio: o que Milei fez com a Argentina

O “ótimo exemplo” da campanha de Flávio: o que Milei fez com a Argentina

Em 14 de setembro de 2026, no seminário do grupo Esfera, em São Paulo, Daniella Marques, coordenadora do programa econômico da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência, afirmou que o presidente argentino Javier Milei “é um ótimo exemplo em termos de voltar a ter capacidade de investimento, em redução de burocracia e de impostos”, segundo o Metrópoles. Ela também disse que a equipe econômica de Flávio pretende se inspirar nas reformas feitas pelo governo argentino.

O ponto central é este: não se trata de uma opinião solta sobre a Argentina. É a coordenadora econômica de um candidato à Presidência dizendo qual modelo considera exemplo para o Brasil. E, quando se olha para os dados argentinos, esse modelo aparece associado a corte de Estado, queda do trabalho registrado, informalidade de 44,2%, perda de empregadores registrados, arrocho social e aumento da insegurança para quem trabalha.

Em junho, o próprio Flávio Bolsonaro esteve em Buenos Aires e elogiou o governo argentino. Por isso, vale perguntar com números: que “ótimo exemplo” é esse que a campanha quer importar?

O saldo do modelo que a campanha de Flávio elogia

Na Argentina, o modelo apontado pela coordenadora de Flávio como “ótimo exemplo” começou pelo enxugamento do Estado. Entre novembro de 2023 e abril de 2026, o Estado nacional argentino perdeu 68.564 postos de trabalho, quase 20% do total, segundo dados oficiais compilados pelo Infobae. Os ministérios caíram de 18 para 9 logo na posse. Órgãos públicos foram fechados, dissolvidos ou reestruturados. O instituto contra a discriminação (INADI) foi dissolvido; a Agência Nacional de Discapacidad (ANDIS) também foi dissolvida, com atribuições transferidas ao Ministério da Saúde; e a agência pública de notícias Télam sofreu intervenção.

O corte chegou a quem mais precisa. Entre 2023 e 2025, em valores reais, a função orçamentária Promoção e Assistência Social caiu 73,4%, o programa de refeitórios comunitários perdeu 52% e as transferências às universidades caíram 27,7%, segundo levantamento do CEPA publicado pelo Letra P, veículo jornalístico argentino. O investimento em obras públicas despencou 79,4%, também em valores reais. O salário dos professores universitários perdeu cerca de 34% desde novembro de 2023, segundo levantamentos do IIEP-UBA/Conicet. O Congresso teve de derrubar vetos de Milei para garantir recursos às universidades e ao Hospital Garrahan, principal hospital pediátrico do país. Na área de deficiência, o governo reconheceu ter restituído cerca de 150 mil pensões suspensas durante auditorias, inclusive com pagamentos retroativos.

Os aposentados sentiram no bolso. Em setembro de 2026, a aposentadoria mínima com bônus era de aproximadamente 498,6 mil pesos. Já a cesta básica do aposentado calculada pela Defensoria da Terceira Idade de Buenos Aires — indicador não oficial do INDEC — passava de 1,82 milhão de pesos em março. O bônus de 70 mil pesos está congelado desde março de 2024. Os protestos semanais de aposentados em frente ao Congresso foram reprimidos; em março de 2025, o fotógrafo Pablo Grillo foi gravemente ferido por um cartucho de gás lacrimogêneo disparado durante a repressão.

Quem defende Milei aponta a inflação, que caiu de 211,4% em 2023 para 31,5% em 2025, e a pobreza oficial, que depois de bater 52,9% no primeiro semestre de 2024 recuou para 28,2% no segundo semestre de 2025. Os dados de pobreza do INDEC cobrem os principais aglomerados urbanos. O problema é o preço pago e o que veio em 2026. A Argentina perdeu mais de 24 mil empregadores registrados entre novembro de 2023 e dezembro de 2025, segundo levantamento da Fundação Fundar. Entre novembro de 2023 e maio de 2026, foram perdidos cerca de 337 mil postos de trabalho registrados, segundo levantamento do IIEP-UBA. Ao mesmo tempo, a informalidade laboral chegou a 44,2% no primeiro trimestre de 2026 — quase uma em cada duas pessoas ocupadas nos 31 principais aglomerados urbanos trabalhando sem acesso pleno a aportes, cobertura social ou proteção laboral. A inflação acumulada em 12 meses voltou a subir e chegou a 33,5% em agosto de 2026. A inadimplência das famílias passou de 3,7% em abril de 2025 para 12,1% em abril de 2026, segundo o Banco Central argentino. Estimativas privadas indicam que entre 1,5 milhão e 2 milhões de pessoas podem ter voltado à pobreza no primeiro semestre de 2026; o dado oficial do INDEC para esse período ainda não havia sido divulgado.

Para reforçar as reservas, a Argentina obteve um programa de US$ 20 bilhões do FMI em abril de 2025, com US$ 12 bilhões disponibilizados inicialmente. Em outubro, o Tesouro dos Estados Unidos abriu uma linha de swap cambial de até US$ 20 bilhões — mecanismo de socorro financeiro, mas não equivalente a um empréstimo integralmente desembolsado. No caminho, o governo enfrentou o escândalo da criptomoeda $LIBRA, promovida pelo próprio presidente, e a investigação sobre suposta propina na agência de deficiência, com 19 processados — seis ex-altos funcionários e 13 empresários, processados, não condenados. Em pesquisa AtlasIntel/Bloomberg realizada de 30 de agosto a 3 de setembro de 2026, 58% dos argentinos desaprovavam o governo. Corrupção e desemprego lideravam as preocupações.

No Brasil, a inspiração já tem forma: a mesma coordenadora fala em usar inteligência artificial para “enxugar” servidores, em revogar mais de mil normas e admite privatizar o Banco do Brasil. O Comitê defende outro caminho: Estado que investe, empresa pública forte e serviço público que chega a quem precisa. A Argentina mostra que motosserra não escolhe onde corta.

Motosserra não escolhe onde corta. Encaminhe para quem acha que o modelo Milei é solução para o Brasil.

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