Petrobras: o que o Brasil perde se ela deixar de ser do povo
Teste Rodrigo Em 2025, o Brasil produziu em média 4,897 milhões de barris de óleo equivalente por dia, recorde histórico e 13,3% a mais que no ano anterior, segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP). Cerca de 90% desse volume saiu de campos operados pela Petrobras, e o pré-sal, descoberto e desenvolvido pela empresa com tecnologia de águas ultraprofundas, respondeu por 79,6%. Por trás desses números está o preço do diesel que move o caminhão, do frete que chega ao supermercado e da passagem de ônibus. Quando o diesel sobe, sobe quase tudo. É por isso que a Petrobras não é assunto de acionista: é assunto de quem faz compra no mercado.
A Petrobras fechou 2025 com lucro de R$ 110,1 bilhões e investiu R$ 112,9 bilhões no mesmo ano. O Plano de Negócios 2026-2030 prevê US$ 109 bilhões em investimentos, oito novas plataformas de produção, 20 navios de cabotagem e 40 embarcações de apoio. A própria empresa estima 311 mil empregos diretos e indiretos ligados a esse plano.
Em 2025, a Petrobras pagou R$ 277,6 bilhões em tributos, royalties e participações especiais à União, aos estados e aos municípios. É dinheiro que vira escola, posto de saúde e obra na cidade.
Só em royalties e participações especiais, o setor de petróleo pagou R$ 62,2 bilhões em 2025. Os municípios receberam R$ 21,1 bilhões e os estados, R$ 16,6 bilhões. Da parte da União, R$ 11,9 bilhões foram para educação e saúde. O Fundo Social do pré-sal, criado para transformar petróleo em futuro, tem R$ 56,4 bilhões aprovados para aplicação em 2027, sendo R$ 21,8 bilhões para a educação.
Royalties são pagos por qualquer empresa que explore petróleo. A diferença de ser pública está em outro lugar: no lucro e nas decisões. Em 2025, R$ 17,6 bilhões em dividendos foram para o grupo controlador (União e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES), ou seja, voltaram para o caixa público. Com a empresa privatizada, esse dinheiro vai para o acionista privado. E quem decide onde investir, o que refinar e a que preço vender deixa de responder ao país.
Entre 2016 e maio de 2023, a Petrobras seguiu o chamado Preço de Paridade de Importação (PPI). Na prática, o combustível produzido aqui era vendido como se tivesse sido importado, com o preço amarrado ao dólar e ao barril lá fora. O resultado apareceu no bolso: o botijão de gás saiu de R$ 68,85 em setembro de 2019 para R$ 113,11 em maio de 2022, e a gasolina chegou a R$ 7,39 o litro em 2022.
A Petrobras abandonou o PPI em 16 de maio de 2023, já no governo Lula. Segundo a própria empresa, o preço do diesel vendido por ela caiu R$ 0,84 por litro entre dezembro de 2022 e março de 2026, uma redução de 29,6% descontada a inflação. Em setembro de 2026, com o barril acima de US$ 100 por causa da crise no Oriente Médio, a empresa reajustou a gasolina em R$ 0,19, e o governo compensou com corte de impostos para o aumento não chegar inteiro ao consumidor. Esse tipo de amortecimento só é possível porque existe uma empresa pública grande o bastante para pesar no mercado.
O que já foi vendido e o que aconteceu depois
A privatização da Petrobras não começou com placa de “vende-se”. Começou em pedaços. Segundo levantamento publicado pelo Monitor Mercantil em 2022, só no governo de Jair Bolsonaro foram vendidos 63 ativos da empresa, somando US$ 33,9 bilhões.
Saíram a BR Distribuidora, a rede de postos, vendida em duas etapas (2019 e 2021) por cerca de R$ 20 bilhões. Saiu a Liquigás, que distribuía gás de cozinha, por R$ 4 bilhões em 2020. Saiu a TAG, dona de gasodutos, por R$ 33,5 bilhões em 2019. Saíram refinarias.
O caso da Bahia mostra o que isso significa. A Refinaria Landulpho Alves (RLAM) foi vendida em 2021 a um fundo dos Emirados Árabes por US$ 1,8 bilhão e virou a Refinaria de Mataripe. No primeiro ano sob gestão privada, segundo estudo do Observatório Social do Petróleo, ela vendeu gasolina 6,2% mais cara e diesel 2,6% mais caro que a Petrobras. Antes da venda, a mesma refinaria era mais barata que a média da estatal.
As fábricas de fertilizantes seguiram o mesmo caminho: as da Bahia e de Sergipe foram hibernadas em 2018 e a do Paraná ficou parada desde 2020. Um país que é potência agrícola passou a depender ainda mais de adubo importado.
Desde 2023, no governo Lula, a direção mudou. A fábrica de fertilizantes de Sergipe voltou a operar em dezembro de 2025 e a da Bahia em janeiro de 2026. A de Araucária, no Paraná, voltou a produzir ureia em abril de 2026, com R$ 870 milhões de investimento e cerca de 700 empregos diretos. Com as três, a Petrobras atende cerca de 20% da demanda nacional de ureia.
Na Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, a obra do segundo trem de refino foi retomada com contratos de R$ 4,9 bilhões. A capacidade vai dobrar, de 130 mil para 260 mil barris por dia até 2029, com cerca de 30 mil empregos nas obras. Estaleiros brasileiros voltaram a receber encomendas de embarcações.
Em 14 de outubro de 2021, o então presidente Jair Bolsonaro declarou: “Eu tenho vontade. Já tenho vontade de privatizar a Petrobras.” Em 11 de maio de 2022, ao tomar posse no Ministério de Minas e Energia, Adolfo Sachsida pediu “o início dos estudos tendentes à proposição das alterações legislativas necessárias à desestatização da Petrobras”. Duas semanas depois, em 26 de maio de 2022, o então ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou: “Vamos privatizar a Petrobras”, ligando a promessa à reeleição.
Em 2026, o tema voltou. O plano de governo registrado pelo candidato à Presidência Romeu Zema (Novo) propõe “privatizar todas as empresas estatais (incluindo empresas estratégicas como Petrobras ou bancos públicos)”. Em entrevista à Reuters, em dezembro de 2025, o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) disse que a Petrobras “é um grande conglomerado de empresas que a gente tem que ver” e falou em separar partes que poderiam ser privatizadas. Em agosto de 2026, o coordenador da campanha de Flávio, senador Rogério Marinho (PL), afirmou que “não há nenhum plano no sentido de privatizar a Petrobras”. Mas o programa econômico da campanha é coordenado por Adolfo Sachsida, o mesmo ministro que, em 2022, mandou estudar a venda da empresa.
O que o povo perde
Perde o controle sobre o preço do combustível, que volta a ficar amarrado ao dólar e à guerra. Perde refinaria que vira monopólio privado regional, como aconteceu na Bahia. Perde encomenda de navio, plataforma e fertilizante feita no Brasil, com emprego brasileiro. Perde o lucro que hoje volta para o caixa público. E perde a capacidade de decidir o que fazer com o pré-sal, que passa a ser decidido em conselhos de administração que não respondem a ninguém aqui.
A Petrobras não é do governo de plantão. É do Brasil. Defender a empresa não pode depender do resultado de uma eleição.
Compartilhe com quem abastece o carro, pega ônibus ou faz compra no mercado: a Petrobras é assunto de todo mundo.
Fontes Checadas
- Produção recorde: ANP, via Agência iNFRA (02/02/2026) — Produção de petróleo e gás bate recorde em 2025 — acessar fonte
- Lucro, tributos e dividendos: Agência Petrobras (06/03/2026) — Resultado de 2025 — acessar fonte
- Investimentos e empregos: Agência Petrobras (28/11/2025) — Plano de Negócios 2026-2030 — acessar fonte
- Royalties: Times Brasil/CNBC — Arrecadação de royalties em 2025 (dados ANP) — acessar fonte
- Fundo Social: O Tempo (09/06/2026) — Fundo Social: R$ 56,4 bilhões em 2027 — acessar fonte
- Gás de cozinha e PPI: CNN Brasil (09/05/2022) — Paridade de importação e o preço do gás de cozinha — acessar fonte
- Gasolina em 2022: Poder360 (07/01/2023) — Preço da gasolina em 2022 — acessar fonte
- Diesel: Agência Petrobras (13/03/2026) — Petrobras sobre preços de diesel — acessar fonte
- Reajuste de setembro de 2026: Exame — Reajuste da gasolina compensado por corte de impostos — acessar fonte
- Ativos vendidos: Monitor Mercantil (03/10/2022) — 63 ativos vendidos no governo Bolsonaro — acessar fonte
- BR Distribuidora: Poder360 (30/06/2021) — Petrobras deixa de ser sócia da BR Distribuidora — acessar fonte
- Liquigás: Forbes (12/2020) — Venda da Liquigás — acessar fonte
- TAG: Correio Braziliense (13/06/2019) — Venda da TAG — acessar fonte
- Refinaria da Bahia: O Tempo (14/12/2022) — Refinaria privatizada vende gasolina mais cara — acessar fonte
- Fertilizantes na Bahia: Movimento Econômico (14/05/2026) — Retomada dos fertilizantes — acessar fonte
- Fertilizantes no Paraná: Poder360 (30/04/2026) — Produção de ureia volta em Araucária — acessar fonte
- Refinaria Abreu e Lima: Agência Petrobras (16/06/2025) — Retomada do Trem 2 da RNEST — acessar fonte
- Fala de Bolsonaro: Correio Braziliense (14/10/2021) — Bolsonaro diz que tem vontade de privatizar a Petrobras — acessar fonte
- Pedido de Sachsida: Correio Braziliense (11/05/2022) — Estudos para desestatizar a Petrobras — acessar fonte
- Fala de Guedes: CNN Brasil (26/05/2022) — “Vamos privatizar a Petrobras” — acessar fonte
- Plano de Zema: Metrópoles (07/08/2026) — Plano de governo de Zema propõe privatizar Petrobras — acessar fonte
- Fala de Flávio Bolsonaro: InfoMoney (22/12/2025) — Flávio Bolsonaro defende privatizações — acessar fonte
- Fala de Rogério Marinho: Poder360 (18/08/2026) — Campanha de Flávio diz que manterá Petrobras estatal — acessar fonte
- Equipe econômica: Poder360 (21/08/2026) — Quem integra a equipe econômica de Flávio Bolsonaro — acessar fonte